ANDANÇAS

Nas minhas andanças pela historiografia guarapuavana vasculhando documentos e relatórios, trabalhos científicos de especialistas no assunto ou até mesmo as teses de mestrado e doutorado, me deparei com fatos curiosos e interessantes ligados à história guarapuavana nesses duzentos anos de sua existência.

Um fato que me chamou atenção foi o trabalho do sacerdote (Padre Chagas) que acompanhou a expedição colonizadora. Além da função catequizadora também desempenhava funções burocráticas, colaborando com administração pública, tais como: registro de nascimento, casamento e óbito.

Ainda no início da segunda metade do século XIX, o registro de terras foi feito pelo vigário Cônego Braga.

Essas funções faziam parte de um acordo feito pela Igreja Católica com a Coroa portuguesa e eram denominados de Padroado e Regalismo. O Padroado consistia na obtenção de Benefícios Eclesiásticos ao Império com direito de intervir na nomeação de bispos e cardeais. O Padroado foi criado através de sucessivas e gradativas bulas pontificais, como resultado de uma longa negociação da Santa Sé com os Reinos Ibéricos (Espanha e Portugal).

O Regalismo foi uma herança da corte portuguesa, onde o Estado interferia diretamente na Igreja católica ao nomear clérigos, párocos e os bispos. A pesquisadora portuguesa Zília Osório de Castro define regalismo como “a supremacia do poder civil sobre o poder eclesiástico...”.

Essas práticas foram extintas definitivamente após a proclamação da República.

Dai surge uma curiosidade. Qual o motivo que levou o Padre Chagas a possuir uma sesmaria. Pois além de sua função evangelizadora enveredava num “...estabelecimento de lavouras e criação de gado, para o que me pedia lhe concedesse da sesmaria em nome d’El Rey Nosso Senhor três léguas de terra, que deverão principiar no Ribeirão Maracujá, que desagua no rio Lajeado Grande onde acaba a sesmaria dos Índios, até o cume dos Montes encadeados denominados São João...”. Conteúdo de um documento assinado pelo Conde de Palma (Dom Francisco de Assis Mascarenhas) governador da Capitania de São Paulo (1814 – 1819) que justificava e comprovava o recebimento da sesmaria.

Outro sacerdote possuidor de terras foi o Padre Ponciano José de Araújo. Vamos encontrá-lo como proprietário na região da Palmeirinha, em seguida na empreitada para assentamento da região de Palmas, com envolvimento num dos grupos interessados na obtenção de terras com um capítulo dos mais curiosos. Ainda aparece como herdeiro de uma sesmaria na região do Candói.

O vigário que assumiu a Paroquia em 1841, o Cônego Braga, ao que se presume, não tinha interesse em obter terras.

Capítulos de nossa história que merecem uma reflexão.

Murilo Walter Teixeira | Publicado: 24/10/2018  |  Editado: 27/10/2018

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