Cláudio Andrade | Publicado: 10/03/2018  |  Editado: 12/03/2018

Que a sociedade contra-ataque com o efeito aldeia

   É recorrente citar que em período de crise os homens se voltam para a  boa filosofia para procurar alguma saída. Verdade ou não, o fato é que as idéias quando bem empregadas podem clarear novos caminhos. Acredito no poder das palavras quando ditas no momento certo. São pedagógicas. Parece que o momento é oportuno.  Apesar de perceber que uma grande maioria de brasileiros ocupa-se mais de si mesmos do que uma causa coletiva, compreendo esta opção e não a vejo como um ato de egoísmo ou coisa do gênero, mas sim como sobrevivência, autodefesa e até mesmo imunização.  Sabe-se que eleição em tempo de crise não é racional, mas sim passional. Com a ajuda da filosofia busquei compreender a gênese do conceito de crise e cheguei a duas interpretações clássicas, a da medicina antiga e do juízo final. A crise na medicina antiga dizia respeito a um momento decisivo do médico sobre a vida ou a morte do doente. Seria o momento de tomar uma importante decisão.  Agora não, a crise passou a ser algo permanentemente permanente ou até mesmo um instrumento para legitimar decisões já decididas sem a participação do homem comum. Já a crise no juízo final era um discurso que tinha fim. No final tudo se resolvia. Em determinado momento a crise cessaria. Hoje ela é estendida ao infinito. Pois bem, eleição em tempo de crise não passa da celebração de um ritual vazio. Tem sido assim no mundo todo. Não há perspectiva alguma, não há utopia, não há expectativa. Por esta razão vive-se a era do não engajamento, do não compromisso público. Tudo o que se diz hoje em matéria de política está reduzido ao conceito econômico. Perdeu-se a essência de pensar a justiça, a liberdade e a igualdade.  Toda energia humana resume-se a débito e crédito, dívida e juros. A política em sua essência têm outras possibilidades.

    Pois bem, o fato é que a campanha cheira mal. Está simplificada pela raiva, pelo radicalismo e pela indiferença.

  Recentemente vimos o resultado na Itália. O caos. Eleitores divididos votaram em candidatos divididos. Sobraram ódio e lideranças desarticuladas, incapaz de criar um governo estável, um sentido. Na Alemanha de Ângela Merkel não foi diferente. Deixando de lado qualquer pretensão de ativismo ideológico vejo uma esquerda tradicional desorientada e sem crédito algum fincada no passado; uma direita emergente, sem consistência alguma e sem noção de como fazer o que vomita por aí e um centro paralisado pela impotência de seus representantes quadrilheiros que não encanta ninguém. Homens de papelão.  O cenário está propício para aventureiros de plantão que podem beneficiar-se.

   É neste clima de decomposição e exaustão da política em si que as coisas estão postas. Tem sido recorrente frases como estas de uma eleitora italiana neste último pleito: “quero votar em alguém que pelo menos ainda não roubou.” “Prefiro um incompetente a um ladrão”. “Sendo diferente já me basta”. “A política é hoje como um estádio, só há torcedores da esquerda ou da direita.” “Falta uma ideia objetiva, mais prática.” A sociedade quer contra-atacar, mas não sabe como e caminha para um desfiladeiro. Ao que tudo indica precisamos recuperar alguns significados, uma espécie de refundação da própria sociedade a saber: valorizar nossa aldeia, nossos próximos, nossa espiritualidade informal, estilos de vida sustentáveis com longevidade e felicidade. O desencanto com o mundo cosmopolita econômico destituído de uma política saudável e propositiva pode involuntariamente nos levar a um novo poder das relações presenciais, ou seja, a valorização de quem está perto, daqueles que olham em nossos olhos e se justificam quando falham, buscando o que é melhor para nossa micro-política. Diante da paralisia nacional, talvez a saída seja valorizar pessoas com quem cruzamos todos os dias.  Seria um retorno à política da antiga Atenas onde a praça poderia superar a Eclésia? Seria um retorno a formas elementares de vida, simples e orgânica? Seria a sacralização de pessoas comuns? Precisamos de um novo poder que possa frear este poder corrompido e desumano. Dentro desta provisoriedade talvez a eleitora italiana tenha razão, mas o certo é que podemos escolher um pouco melhor e dar crédito para aqueles que ainda não erraram. Entre a possibilidade e  a realidade, voto na possibilidade.

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